Missões, ajuda a povos carenciados, apoios humanitários ou até a defesa dos mais vulneráveis são a orientação dos VOLUNTARIOS no mundo.


DESAFIOS  -  MISSÕES


AS GRANDES AVENTURAS SÃO SUCESSO 

mas , ao terminar cada aventura africana «Máquinas e Homens» exaustos e cobertos de pó mas exuberantes de alegria com a satisfação de ter sido superado mais um grande desafio e concluída mais uma Missão com pleno sucesso, estão já de volta ao seu quotidiano. 

É tempo de avaliar todo o esforço da preparação, a determinação de vencer carências e dificuldades, o enfrentar das imprevisíveis situações que já se adivinhava virem a surgir. 

Mais penalizante que os 46ºC, a passagem das diversas fronteiras, o carimbar dos passaportes, pagar, pagar, pagar sempre e tudo, o controle policial, as metralhadoras apontadas, a caça ao dinheiro pelo velho truque do excesso de velocidade ou falta do cinto de segurança, evitar o vasculhar dos carros, a deficiente ou fraudulenta emissão de documentos, tudo conduz a um desgaste quase exasperante dos expedicionários. 

Valeu a pena! 

Fizeram-nos sentir insignificantes, foi apontada a exiguidade da nossa ajuda perante as imensas carências daqueles Países, mas o «nada» que nós levámos seria muito se somado a muitos «nadas» de quem nos critica. E esse «nada», arrastado através de uma África carente e voraz de todos os bens materiais, foi, para quem não despiu a camisola antes de a ter vestido, compensação suficiente para riscos e cansaço. 


Num espaço limpo são acolhidos doentes com HIV, tuberculose e lepra; se uns conseguem ainda ser curados ou minimizado o seu sofrimento, outros encontrarão o seu fim com dignidade e menos dor. É o Hospital de Cumura na Guiné-Bissau.

Nós vimos, nós estivemos LÁ, acompanhados por um Frei Franciscano e pelas nossas Irmãs Franciscanas Hospitaleiras. Estas mulheres notáveis pela sua abnegação pouco mais podem fazer que gerir as suas escolinhas, alfabetizar uma multidão de meninos e meninas e apoiar as famílias das «tabancas» ao seu redor com o muito pouco que vão conseguindo angariar. 

É confrangedor avaliar os desperdícios de uma sociedade de consumo perante a míngua de seres humanos num país onde os animais de alimentam de papel e sacos de plástico. Por «nada» que seja, fica o desafio para juntar muitos «nadas» e multiplicar a entrega de bens essenciais a estes voluntários para que consigam realizar «os seus milagres» menos penosamente. 

No regresso soa um desabafo de cansaço: «nunca mais»

Mas volta a nascer de imediato o desejo de lançar novo desafio .


NÃO TENHAM MEDO! O Universo é perfeito - por linhas tortas escrevendo direito...!


UMA história sobre Angola, 1969… por Alvaro Costa




A minha foto
Lisboa-Cidade, Lisboa, Portugal


Na época das chuvas, em Zala, a Norte de Luanda, as estradas ficavam praticamente intransitáveis. O quartel onde estávamos ficava inacessível às colunas de abastecimento que, mensalmente, traziam, desde Luanda, o que fazia falta aos cerca de 400 soldados. Passávamos algumas semanas em que o abastecimento era feito por aviões, que lançavam os caixotes com comida e outros bens necessários. Por vezes, o vento estava a favor do “inimigo”, presenteando-o com a carga dos pára-quedas desviados do alvo…Passávamos então dias e dias a comer salchichas com arroz!

Lembro-me duma altura em que, para nos deslocarmos 40 kms, até ao quartel mais próximo, situado na fazenda Madureira, demorámos uma semana, encontrando algumas vezes no lugar da picada, um caudaloso rio que fazia desaparecer grandes troços do caminho, transformado num pântano... 


Nesses pântanos era frequente os veículos mais pesados ficarem atascados até aos eixos, o que significava um ou dois dias de atraso, gastos a salvar o viatura do atoleiro. Apenas esses veículos milagrosos chamados “Unimog” conseguiam passar aí, recorrendo ao guincho montado na frente. O cabo era preso a uma árvore na direcção do nosso destino e o guincho arrastava esses “burros do mato” para terreno seco.
Aliás, eu inventei um sistema de reboque utilizando dois ou três unimogues com guincho e algumas roldanas, conseguindo, ao colocar os cabos a puxar de várias direcções e alturas, retirar pesados camiões desses atoleiros. Lembro-me dum camião, marca “Magirus", creio, que fora dado como perdido, depois de as tropas de Engenharia munidas de bulldozers e gruas, terem desistido de o retirar.

Recorrendo aos guinchos dos “burros do mato”, conseguiu-se endireitar o camião e, depois, arrastá-lo para terreno firme. Claro que a carga, constando de, entre outras preciosidades, muitas garrafas de whisky, desapareceu misteriosamente. Consta dos relatórios que caiu nas mãos do “inimigo”, mas cá por mim, penso que o destino da carga foi outro, pois, também misteriosamente, muitos soldados, no resto do caminho, cantavam alegremente, tais eram as bebedeiras…
Quem também ficou muito contente foi o condutor e dono do camião, só faltou beijar-me os pés, agradecido…



UMA HISTORIA EM MARROCOS

 - o deserto minado




A AVENTURA SEGUE – Parte o «convoi» faz as habituais paragens nos sitios certos e a chegada a LA GOUIRA aprazada para a noite, pelo que não há pressa.

Quem conhece estas paragens – o chamado SAHARA ESPANHOL, renhidamente disputado por Marrocos, Mauritania e Frente Polisário – fica agradàvelmente surprendido. A hipotética pista do ano passado que às vezes se encontrava no intervalo dos desatascansos dos bólides anti-diluvianos, foi substituida pelo «goudron».
                                                                                                         
E lá estava o imenso hotel aguardando-nos para essa noite. Todo o espaço delimitado por calhaus era nosso, a seguir à duna eram os toilettes (desculpem não haver água) mas em estrelas o firmamento tinha sido pródigo para este Hotel. Eram milhões e milhões a tremeluzir, lindas, perto, longe, parece que logo ali e cadentes a sugerir um desejo – Bissau, depressa! – A estrela-d’alva parecendo uma Berec que dura, dura e dura.


Manhã cedo, acertar coordenadas no GPS, trocar conhecimentos com elementos de uma organização espanhola que se dirige ao Senegal com a oferta de duas viaturas NISSAN TERRANO II, e preparar para partir rumo à Mauritania




LA GOUIRA/NOUADHIBOU

As autoridades decidem fazer a divisão do «convoi» em duas partes dado o grande número de veículos. Aquecer os motores e em marcha na primeira leva a uma velocidade bastante aceitável pois houve o cuidado de seleccionar os veículos mais rápidos.

O DESERTO MINADO

O Chefe decide: a ML precisa ir para o Range Rover acertar o GPS para o regresso,


 portanto, o Carlos co-piloto do Range (e do chefe) vai para o Musso da ML. A Rita (co-piloto do musso) decide ir para o Patrol fazer companhia ao Pedro. O Helder (co-piloto do Patrol) vai pilotar o Musso. Tudo bem… até que

Chegámos ao posto de fronteira de NOUADHIBOU; falta o Patrol e o Musso! Bom, vamos ter que esperar, entretanto aproveita-se a torneira de água fresca (em pleno deserto) e come-se qualquer coisa (pão marroquino e atum ou atum e pão marroquino; há latas da FRAMI mas estão frias e não vai haver tempo para cerimónias).

Tanto tempo! Olha o comboio das não sei quantas carruagens de minério, outras de combustível, duas máquinas de tracção e uma de travagem

e não sei que mais mas que o torna uma centopeia barulhenta que leva um bom quarto de hora a passar.

VEM LÁ O PATROL!

Viram o Musso? … Nós atrasámo-nos porque tivémos que parar, entretanto o Musso ultrapassou-nos e nunca mais o vimos, pensámos que estavam já aqui todos à nossa espera.

O Chefe decide tratar das formalidades com as autoridades para adiantar a entrada na Mauritania. A opinião dos soldados Mauritanos é tendente a tranquilizar-nos; - não se ouviu ainda nenhuma explosão, portanto ainda não lhes aconteceu nada e se eles só se atrasaram são encontrados pela segunda metade do «convoi». Mais, não passaram ocontrole rumo de novo ao deserto, pois os respectivos passaportes estão ainda em poder do soldado que nos acompanhou e ninguém passa sem receber o passaporte.

Tranquilizemo-nos com estas informações, aqui a autoridade é infalível.

Oh! Malta! Os gajos Espanhois dos Terranos estão a voltar para trás; o que se terá passado? Vamos cuscar!

SIMPLES! Esqueceram-se de ir buscar os passaportes!!!!
                                                                                              
ENTRETANTO:

O Musso e o Helder realizam que se perderam. Assim, combina-se com os companheiros de aventura Carlos e Linda assinalarem o trajecto e voltarem para trás.

Neste meio tempo o Helder anuncia ir procurar uma rocha semelhante à que o Amândio encontrou em Marrocos (mas promete não lhe pôr a carteira em cima). A História não chega a contar se os intentos foram conseguidos; desconhece-se se a descoberta imediata de um objecto não definitivamente identificado, mas igualzinho a uma mina enterrada na areia e destapado  pelo vento, foi antes ou posteriormente a ter encontrado a  tal rocha.

O Helder, deixou Tshirts (que no regresso não encontrámos) e garrafas vazias (essas sim estavam onde tinham sido deixadas) para assinalar o percurso e, em marcha-atrás, pisando religiosamente o rodado anterior voltou até encontrar as pistas que nunca deveria ter perdido de vista.

O Helder não ganhou para o susto e jurou a si próprio nunca mais na vida querer ter uma dor de barriga;


FINALMENTE JUNTOS e lá vamos rumo a NOUADHIBOU  (Mauritania) e a novas formalidades


A SAGA CONTINUA


A “ESTRADA MARITIMA” DA MAURITANIA, SEUS CAHYOUS, BARCOS, CORDAS, CORVINAS E CHACAIS

NOUADHIBOU / NOUAKCHOTT

Formalidades cumpridas, contratado um guia local, consultada a carta das marés voltamos à estrada, quer dizer à areia e às dunas rumo à capital da Mauritania.

Há que ultrapassar ainda de dia as conhecidas traiçoeiras areias de Nouhangar, para estarmos junto ao mar na próxima maré baixa das 04,00 horas.



Trajecto muito duro em que o Musso foi o primeiro a reclamar, mas todos lá se atascaram sucessivamente não havendo heróis a registar.





Objectivo cumprido, paragem para comer e dormir um pouco porque a próxima etapa vai ser de dureza quase extrema. Uma cabana aguarda-nos e os seus ocupantes, simpáticos ratinhos equilibristas e homens de negócios que nos oferecem chá dão-nos conselhos e se precisarmos de combustivel têm prazer em nos ajudar (ao dobro do preço local).

Partimos madrugada bem negra ao chamamento do nosso guia. Está maré baixa e temos três horas para fazermos cerca de 280 quilómetros pela faixa de areia deixada a descoberto pelo mar. O breu é tão compacto que temos a ilusão de escorregar dentro de uma manga E SE ESTA É A MARÉ BAIXA, como será a outra?

Medos para o lado! YHUPI! ISTO É O MAXIMO! Grita a Rita a cada salto que o Musso dá nas reentranseas que o mar deixou ao baixar. ATENÇÃO! DESVIA-TE OLHA UM BARCO! Estes gajos são doidos fazem-nos ir para dentro de água! CUIDADO! Acelera antes que a água faça levantar essa corda. Quando isto é mais largo os gajos põem as pirogas mais dentro mas lixam-nos com as cordas com que as prendem. Imagina só que a corda se enrola no nosso rodado ou nos apanha pelo pára-brisas!


















Rolar em duas rodas é giro mas como é que a malta se safa se fizer capotanço?

É quase manhã, o mar tem uma cor espantosa

NOUAKCHOTT  à vista!  Vamos ter que ENTRAR NA AREIA SECA, atenção: BAIXAS, 3ª.A FUNDO! Acelerar! Vira rápido, sai para o molhado que assim não vai! CURVA LARGO E ENTRA DE NOVO fora do rodado anterior. SAIAM DA FRENTE! … Esta gaita não se segura! CUIDADO! O belo do guia parece que praticava artes marciais e só isso e um duplo salto mortal o salvou de apanhar com o Musso em cheio.  JA PASSOU!

O REGRESSO - AS MESMAS DIFICULDADES E OUTRAS

Dos seis jipes que tinham chegado à Guiné estavamos reduzidos a três viaturas e seis participantes.

Todos sentíamos a aprensão do regresso e a responsabilidade de nos entre-ajudarmos para conseguirmos vencer o desafio que já se antevia dificil pela vivência da ida.

Percebíamos agora o porquê de não termos conhecimento de alguém jamais ter empreendido o caminho de regresso terrestre e da decisão dos dissidentes em regressar por avião embarcando as viaturas.


O CHEFE DÁ ORDEM DE MARCHA

O sol começa a tombar; hora ideal para vencer quilómetros, fazendo beneficiar os nossos sacrificados motores e corpos. Ainda há estrada de alcatrão e vamos ter de chegar à noite ao embarcadouro de BARRA

Vamos apertar o andamento pois temos as barcaças de BISSORA em S. VICENTE e S.DOMINGOS no rio CACHEU que param ao escurecer.

Bom andamento, um engano num cruzamento traiçoeiro, uma viragem para a direita e aí está um desvio da rota. O GPS mostra que voltámos à direcção correcta e, pela carta da região o chefe conclui que vai atravessar o rio CACHEU mais acima mas vai conseguir chegar a ZIGUINCHOR sem voltar para trás.

A negra noite africana cerrou sobre os nossos jipes e as nossas cabeças. Estamos embrenhados em plena selva tropical com o respectivo calor mole e abafadiço. A estrada há muito que acabou, temos um trilho onde podemos seguir em fila comendo o fino pó que o da frente levanta e nos tira totalmente a visibilidade.

Perigo, perigo constante, o trilho não é a direito e conseguimos vislumbrar as árvores quando quase já não dá para fugir. Não é possível continuar assim; vamo-nos separar do
carro da frente e dar distância suficiente para fugirmos à poeira.

À frente vai o PATROL com o Pedro e o Helder, pois, sem ar condicionada, não aguentariam de outra forma; seguimos no MUSSO a Leonor e a Rita e a fechar o RANGE ROVER com o chefe e a Linda.

Leonor! Atenção! Vai aí um burro e gente! OK, Rita, já vi!

A Leonor pensa “ que se lixe o burro, isto mete mais medo que um susto! Somos seis gatos pingados, não sabemos onde estamos, desarmados, se estes gajos nos preparam uma emboscada, estamos fritos”  -  que se lixe, prego a fundo e fé na máquina!

Atrás o Chefe não diz (senão a Linda tem outro faniquito) mas pensa: que terá dado naquela? Com o espalhafato que fez espantou o burro. Diz a Linda: Oh! olha o burrinho tão giro parece que se assustou com o carro da Nôr!

Espantou sim e de que maneira… iniciou tal cavalgada que atirou com um homem pela ribanceira lateral. Mesmo assim deu para o RANGE passar.

E o chefe pensa… esta gente é pacifica (?!) uma emboscada aqui era uma gaita! Ainda bem que ninguém pensou nisso e vão a andar bem!

A ML pensa… ainda não foi desta que saiu a emboscada! Estes fulanos nem pensaram ainda nisso!

A Rita grita: Nôr!!!  Olha um sinal de luz aí à frente, parece o PATROL parado na berma esquerda, o que terá acontecido? Rita ; mantém-te calma, não é nada, não é nada… Poça aí está ela, agora é que é! Isto não estava no calendário.

Já passou, …fogo!

Oh Helder, está tudo bem com vocês? Oh Leonor então não viste os sinais da lanterna para parares? Tens um abismo por baixo desses troncos soltos e a velocidade que trazias podia ter sido um suicidio.

Entretanto, o chefe que se tinha aproximado da ponte improvisada, vê os toros aos saltos pela passagem do MUSSO, apercebe-se do abismo e do caudal de água e suspende a respiração até concluir que também ainda vai conseguir passar.

A Leonor não compreendeu sinal nenhum, só quis ultrapassar a tão esperada emboscada.

Finalmente ZIGUINCHOR e caminho já conhecido, a seguir BIGOGNA e talvez se consiga chegar au embarcadouro de ROSSO para passarmos no primeiro barco da manhã.

Novo posto de fronteira, paragem obrigatória. Estacionem as viaturas, não poderão seguir antes do alvorecer. Há guerra em CASAMANCE, podem ouvir daqui o tiroteio que só pára de manhã.

Amanhã; um novo dia e um novo desafio

O RANGE-ROVER está a dar problemas de carburação, vamos chegar ao próximo posto de abastecimento e meter-lhe aditivo na gasolina a ver se se resolve.

Bom, não vai mesmo; PEDRO vamos passar uma corda e rebocá-lo.

Combustível, aditivo, nada resulta, o motor não tem alimentação suficiente para trabalhar.  Carros a gasolina – proibido irem tão longe!

 Há um concessionário em NOUAKCHOTT. Vamos conseguir chegar lá esta noite?

ENTRAR NA BARCAÇA



PEDRO, TIRA A CORDA! Este gajo tem que andar nem que seja a motor de arranque! A entrada para a barcaça é difÍcil vamos fazê-lo ficar de frente para a saída, depois dele estar lá dentro, que se lixe, sai à corda ou sai a murro, mas sai! Lindo! Lindo! Vai, devagarinho em primeira, isso! Vai! Vai! Cá dentro já cá estamos! Huff!

Não há dúvida, o que entra – sai! Já cá estamos e agora à corda… rumo à fronteira do Senegal 

 Há um concessionário em NOUAKCHOTT. Vamos conseguir chegar lá esta noite?

PEDRO, TIRA A CORDA! Este gajo tem que andar nem que seja a motor de arranque! A entrada para a barcaça é difícil vamos fazê-lo ficar de frente para a saída, depois dele estar lá dentro, que se lixe, sai à corda ou sai a murro, mas sai! Lindo! Lindo! Vai, devagarinho em primeira, isso! Vai! Vai! Cá dentro já cá estamos! Huff!

Não há dúvida, o que entra – sai! Já cá estamos e agora à corda… rumo à fronteira do Senegal


e logo depois para a capital da MAURITÃNIA:


Rápido! Vamos  à Oficina, que afinal é Renault, aguardando encontrar boas notícias.

NÃO PODIAM SER PIORES -  O RANGE NÃO TEM SOLUÇÃO!  NÃO HÁ PEÇAS E O ELECTRÓNICO DA IGNIÇÃO ESTÁ IRRECUPERÁVEL.


Deixado para trás o RANGE-ROVER , atulhado com todo o equipamento de campismo, parte da reserva de alimentos e tanta coisa que tanta falta nos vez nos difíceis dias que nos esperavam isolados no deserto, foi preciso manter a esperança, demonstrar calma e tranquilidade, criar um ambiente alegre e sadio. 

TODOS, mesmo todos, apelando à sua juventude, consolando-se mutuamente por termos tomado uma resolução e já estarmos de regresso ao nosso querido Portugal e aos braços dos nossos parentes e amigos nesta altura já informados da nossa odisseia e de que estamos bem PARTIMOS de NOUAKCHOTT rumo à «ESTRADA MARITIMA DA MAURITANIA».

23 HORAS, como parece ser normal, uma noite tão negra que nos sentimos emparedados. À frente o MUSSO conduzido pelo CHEFE, o guia a seu lado, acompanhados pela LEONOR e pela LINDA. Segue o PATROL, conduzido pelo PEDRO acompanhado pelo HELDER e pela RITA.

CHEGÁMOS AO MAR! O Guia aconselha a seguirmos junto ao parque de campismo para nos fazermos ràpidamente à praia.

Droga! O MUSSO atascou. Grita o CHEFE -  SEGUE PEDRO, PÁRA SÓ EM TERRENO FIXE!     O PATROL atascou também.

Somos muito poucos para safarmos um jipe da areia atascado até às orelhas! O Guia de má vontade escava e dá ordens num francês execrável, como ele. A areia é completamente solta, escava-se mais metem-se tapetes, os chassis já estão assentes. O tempo passa e a maré não espera. Vamos ao parque de campismo pedir ajuda. Vários cães ladram enfurecidos – na MAURITANIA até os cães são agressivos!

O PEDRO SOLTOU O PATROL! A CORDA PARA PUXAR O MUSSO!  
VAI! VAI! VAI! HURRA! SAIU.                                                     

Areia molhada, mar a cobrir no seu fluxo a totalidade do areal. Será que já é maré baixa? O Guia diz Oui! O CHEFE tem dúvidas… consulta cartas, faz contas … deve ser; VAMOS A ISTO!

O CHEFE é um alto piloto só que a LEONOR está apavorada, este mar é ainda mais aterrador que o da ida, o mar “descarnou” os calhaus deixando cristas rochosas em número e tamanho inenarráveis. O mesmo mar alteroso continua a lamber a praia banhando os nossos jipes e tirando totalmente a visibilidade. NÃO HÁ TEMPO DE DECIDIR: SALTO A ROCHA OU ENTRO NO MAR? Qualquer das opções é medonha -  O PEDRO COMENTA: olha se tenho decidido saltar a rocha? Este também cá ficava!

O Guia dorme – A Leonor grita Eh, Monsieur ça va? 
O Guia acorda sobressaltado e responde: Oui, oui, tout droit! E volta a dormir! Abençoados 40 contos!
                                                                                 
AMANDIO, ADORMECESTE? Grita a Leonor. IAS MAR DENTRO!

E lá estavam de novo as barcaças e as cordas e as corvinas (pareceram ainda em maior quantidade do que à ida).

Será possível ser esta noite ainda mais negra que a de ida? VAMOS PROGREDIR RÁPIDO.

Neste momento tomamos consciência de que deveremos estar a meio do percurso e de que a hora da maré estava correcta. Em sentido contrário começa a surgir movimento. E que movimento! As benditas pick-ups avançam direitas a nós a uma velocidade que nos parece superior à nossa ( que oscila entre os 100/110), parecem bólides camicases que nos deixam sem respiração.  PARA QUE LADO VAMOS SAIR? O instinto dos nossos pilotos diz “direita”

CONSEGUIMOS!  MAIS UMA ETAPA SUPERADA!

Três longas horas que pareceram uma eternidade. O dia ainda tarda a nascer, vamos parar um pouco porque o Guia além de ter sono também não perdeu o apetite.

VAMOS AVANÇAR PARA NOUADHIBOU RAPIDAMENTE; HOJE SERÁ SÁBADO E TEMOS O “CONVOI” PARA LAGWIRA/DAHKLA.                    TRISTE ILUSÃO!

De novo em andamento, agora o Guia passou para o PATROL e segue na frente.

Este Guia escolheu um caminho diferente daquele que utilizámos à ida. Mereceu o acordo unânime pois as dunas de Nouhangar da ida tinham sido difíceis de vencer mesmo com um maior número de elementos, de que presentemente não dispúnhamos.

O Guia agora quase acordado, fala e gesticula mas no PATROL ninguém o entende;  O terreno é firme e de bom andamento  -  vamos lá esticar pela malta, pensa o Chefe. E se bem pensou melhor fez, e lá vai a ultrapassagem

O GUIA GRITA… GRITA, TARDE DEMAIS FOI ENTENDIDO!



O MUSSO ACABA DE ASSAPAR NO LODO DO LAGO SALGADO. Desânimo geral; POÇA, ISTO ESTAVA A IR TÃO BEM

... depois de muitos esforços finalmente saiu..

OUTRA SAGA

À entrada da Mauritânia somos obrigados a preencher a assinar uma DECLARAÇÃO DE HONRA em que nos comprometemos a não vender ou por qualquer outra forma deixar as nossas viaturas no território. O RANGE ficou E NINGUEM JÁ SE LEMBRAVA DISTO!


Nova corrida pelas areias moles e estamos de volta ao dito barraco fronteira.

CONFERENCIA COM O CHEFE E COM O GUIA – FIM DAS FORMALIDADADES. VAMOS FINGIR REGRESSAR A NOUAKCHOTT.-  OFICIALMENTE PELOS NOSSOS PASSAPORTES AINDA HOJE ESTAMOS NA MAURITANIA.

O CAMPO MINADO

O trajecto da fronteira para NOUAKCHOTT ou para o DESERTO MINADO era o mesmo durante cerca de 20 kms. Nessa altura, far-se-ia uma viragem radical no percurso fletindo para norte e entrando abertamente no deserto minado.

E ERA QUASE FIM DO DIA. O crepúsculo que se avizinhava anunciava para o dia seguinte um novo dia de sol e calor. Interiormente interrogamo-nos sem deixar transparecer qual poderá ser a resposta - SERÁ QUE AINDA VAMOS VER NASCER ESSE DIA?
O Guia reúne os dois condutores e dá instruções:

-          Os dois JIPES devem seguir muito perto um do outro. Não acender luzes ou sequer os stops, o segundo carro deve proceder exactamente como o da frente, seguindo religiosamente o mesmo rodado e à mesma velocidade. ATENÇÃO UM LIGEIRO DESVIO PODE QUERER DIZER O FIM DE TUDO.

-          Nas primeiras horas vamos atravessar deserto Mauritano e por vezes vamos ficar visiveis dos fortes e ao alcance das armas. Há que rolar VITE! Há ainda o risco de encontrarmos alguma patrulha, pelo que há que estar alerta para a ordem de PARAR.

-     Quando atravessarmos  a linha do comboio para norte ficamos em MARROCOS .
Mantem-se o perigo de sermos vistos agora pelos fortes e armas marroquinos.
E partir dessa altura o Guia corre sério risco pois se formos apanhados ele é preso por entrada ilegal no país.

Feito o ponto de situação – AÍ VAMOS NÓS EM PLENA AVENTURA. ESTÃO TODOS PROIBIDOS DE PENSAR!

VITE…VITE…  VITE…  TOUT DROIT A TOUTE VITESSE! 

ARRETÉ Á LA GAUCHE DE LA DUNE!           TOUT EST BIEN. ?  VITE…VITE…

E o HELDER desligou o fio dos stops do PATROL que ia atrás, e sem luzes, sem fumar, sem vêr sequer o caminho por onde seguiamos, lá fomos

UMA FÉ TOTAL NO NOSSO GUIA E AUSENCIA DE PENSAMENTO

O Guia conhecia o percurso tão bem como as suas mãos; ele sabia onde estava uma rocha ou um buraco e penso que também sabia onde estavam as minas ou pelo menos onde não estavam! 

O Guia ordena: Parem entre essas dunas. Vamos dormir aqui. REBELIÃO TOTAL!
NOS QUEREMOS CHEGAR ‘HOJE’ AO FORTE MARROQUINO. 

O Guia explica: Depois de anoitecer é muito arriscado aproximarem-se do forte. Ninguém pode entrar ou sair do forte depois de anoitecer, portanto, vamos comer e dormir. E ASSIM SE FEZ! Ninguém tinha fome, comeu-se desinteressadamente e enrolámo-nos para dormir depressa.

É MADRUGADA –  O GUIA DESPEDE-SE  - tem 17 quilómetros para fazer  a pé  até à Mauritânia .   Logo adiante é o ‘goudron’ que nos leva sãos e salvos à protecção de MARROCOS.





UMA OUTRA história em Marrocos 

Morte na estrada 







11 viaturas; 23 participantes



Fizeram-se muitas fotografias, escreveram-se alguns «apontamentos de viagem» mas a história completa como se passou, por tão violenta e assustadora, durante muito tempo não se encontrou coragem para a escrever.

Mas o tempo atenua tudo – o medo – a angústia - até a raiva e a impotência. Passados anos e muitas aventuras vividas no «fio da navalha» já é quase fácil reviver o passado para o descrever com a realidade possível aquele «dia mais longo» que para sempre perdurará na memória de todos os participantes na “First Off Road Maroc”.

O deslumbramento dos primeiros dias, atravessar campos cobertos de neve seguidos de belos prados verdes cobertos de flores e chegar à imensidão do deserto com as suas dunas cor-de-rosa. Toda a descoberta de um continente que nada tem a ver com a Europa actual, no tempo, na religião, na cultura, na hospitalidade e na gastronomia.

Facilidades de costumes menos rígidos aliados à curiosidade de descobrir e experimentar sensações novas, mais fortes e proibidas, têm mostrado a apetência para a aquisição e uso de «drogas leves» especialmente pelos mais novos. 

Um charro, conjugado com a euforia da liberdade que davam os 4x4 no vencer da areia, no cavalgar das dunas e na progressão rápida no alcatrão, acaba por inebriar os menos experientes conduzindo a excessos perigosos.

E assim aconteceu…


Manhã cedo de uma qualquer sexta-feira do mês de Abril, vamos deixar para trás as areias do deserto, o lago salgado e rumar a Rissani, ao mercado berbere, com destino a Zagora. A coluna de 11 viaturas rola com facilidade depois de algumas compras e de um almoço rápido.

Não havendo ao tempo as facilidades das caixas ATM de hoje, há necessidade de chegar ao Banco a Zagora antes das 17 horas para levantar dinheiro para o fim-de-semana. Temos tempo mais que suficiente pois vamos aproveitar a planura da estrada e rolar com cadência.
  
Na caravana seguem duas viaturas a gasolina com menor autonomia que as de gasóleo mas duas outras estão equipadas com jerricans exteriores para suprirem aquelas necessidades. Uma paragem rápida fica o Patrol da mecânica e os Korandos a abastecer o Samurai e o Niva. 

O ‘chefe’ dá instruções para que a caravana siga devagar até estarem todos de novo reunidos.

Nestas expedições humanitárias é norma seguir o ‘chefe’ à frente


 e a ML a fechar para que ninguém se perca, 


o que por vezes se torna extremamente difícil especialmente em cruzamentos com semáforos e dentro de povoações. Nunca foi conseguido consciencializar os condutores para se manterem colados na cauda uns dos outros e só com esforço titânico por vezes se consegue manter o mínimo de disciplina.

Aqui, era uma planura imensa serpenteando pelo meio de pequenos montes que aqui e acolá nos escondiam uns dos outros mas onde era fácil rolar com cadência.


Inicia-se o andamento, a ML devagar à espera de ter à sua frente todos os que não tinham ficado parados e vê passar, em bom andamento, o Terrano do Rui


 os UMMs do Zé  



e Roças 




mais o Discovery  

um e mais outro e, espanto o Samurai com «as Amélias» (alcunha das Sras. que o tripulavam)


 o Golf do guia Larby  e… lá vem o ‘chefe’ a abrir (parece que só em duas rodas)… Mau… e os outros quatro??

ML conferencia com a sua companheira Júlia. Conclusão: Vamos esperar que estejam todos à nossa frente --- não andamos nem mais um metro!

… E o tempo passa devagar, segundos maiores que minutos e uns poucos destes que parecem eternidades… E o tempo continua a passar… e nada… e passa e passa!

Júlia! Vem lá longe um com as luzes todas… o que quer dizer que há problemas! É quem?? Está ainda longe mas não há dúvida traz pirilampo! Há merda! 

É o Patrol com o mecânico; 


está aí quase… João! Os outros?

O João pálido e consternado mas tentando aparentar controle dispara ---- ML vai apanhar o chefe, temos UMA MORTA NA ESTRADA. 

Os nossos estão todos bem. Um dos Korandos matou uma mulher que se atravessou – não há dúvida de que está morta --- é horrível!  Eu vou voltar para junto dos outros. Por amor de Deus volta depressa – não sabemos o que fazer!
  
Certo João, volta e mantenham-se juntos e tranquilos,  vamos já ter convosco.

Júlia (coisa que nunca tinhas feito nesta viagem) põe o cinto de segurança – vamos planar baixo.

Ora bem, Júlia. Temos uma emergência que não está dentro das previstas, por isso vamos lá a estabelecer linhas de conduta.

É assim:

<<Vamos fazer parar todos os jipes.

Logo que apanharmos o ‘chefe’, que já vai bem longe pelo tempo a que passou por nós, não vai haver tempo para explicações, volto para trás para o acidente e no caminho ponho-o a par da situação.

Tu saltas para o UMM com o PP, contas-lhe o que se passa, voltem para trás, reúnam todos e parem junto à estrada.
Juntos vão aguardar até ao sol-posto e se nós não aparecermos seguem para o Parque de Campismo de Zagora que será o local de encontro até amanhã ao alvorecer.

Não sabemos o que nos espera por isso lembra-te que a partir da manhã ficam nas vossas mãos o destino de cinco jipes e dez pessoas retidas pelo acidente.. Algo de muito mau se terá passado se não estivermos juntos quando raiar o sábado, por isso, nada de hesitações, logo cedo seguem TODOS para a Embaixada de Portugal em Rabat para pedirem ajuda. Certo? Certo!>>

… E bem! Estes gajos andaram! Olha ali vão as Amélias! Júlia, vou abrandar ao lado do Samurai, grita-lhes EMERGENCIA – ENCONSTEM – PAREM E ESPEREM. 
E a Júlia assim fez. 

Lá vamos de novo a dar tudo o que o Terrano tem! Poça, isto é que foi abrir! Do chefe nem pó!

Mais um, mais outro e depois outro, todos foram encostando e parando a aguardar sem saberem bem o quê.

O tal pó lá ao longe!!! É o UMM mas não vê os nossos sinais – agora perdemo-lo no serpentear da estrada – aqui não nos vê mesmo! E os outros lá sozinhos! Bolas! Isto não estava no programa!

Lá vai o UMM – é pá não tenho mais nada para fazer sinais e eles não nos vêm mesmo! Esta droga não dá mais! E o tempo passa… tal como quando estávamos paradas! A imensidão da planície parecia aliar-se ao comprimento dos segundos.

Finalmente! Viram-nos! Olha os stops… Já ligaram os intermitentes… Vão parar! Vamos, falta pouco! Óptimo, o guia está à frente do chefe e pode ajudar também.



Falta pouco para o princípio de um pesadelo ainda maior 




E cumpriu-se o plano. Inteirou-se o chefe e o PP da situação; o guia prontifica-se para seguir para Zagora para alertar a polícia.

A Júlia salta para o UMM, o chefe assume os comandos do Terrano e aí estamos de regresso à estrada de Rissani.

O chefe conduz a ML tem os sentidos ‘todos acesos’. Atenção… estão lá adiante… pára! Está um corpo no meio da estrada! É horrível!

O chefe leva o Terrano para fora da estrada e, muito lentamente, ultrapassa o local onde se deu o acidente e vai juntar-se aos quatro jipes parados na berma.

Inexplicável! Como estão os quatro parados antes do corpo? Simples, o João  explica:

<<Vinham todos a andar bem, havia umas pessoas na berma da estrada, passou o primeiro Korando e uma camponesa com um molho de verdura às costas, corre a atravessar a estrada a olhar para o carro que tinha passado e sem ver o segundo Korando.>>




Tempos passados compreendeu-se como é que um condutor se desvia de um peão para o lado para onde ele corre. Era fatal apanhá-lo, primeiro com o guarda-lamas e retrovisor e depois enrolando-o debaixo da carroçaria, fazendo aquelas medonhas fracturas expostas e imprimindo no cadáver tal desfiguração que só será possível ser imaginada por um qualquer Frankenstein.

Não estivesse o condutor debaixo do efeito «daquela coisa que faz rir», que a ele agora fazia chorar mas que ao companheiro ainda fazia rir e o passar por detrás do peão teria evitado esta situação dramática para todos os companheiros. Mas Marrocos faz disto à juventude!!

Depois do embate o Korando empreende a fuga e é o João que o ultrapassa e o faz voltar para assumir a situação.  Todos em caravana invertem a marcha mas a pressão é tanta que nem vêm o erro de colocarem os carros antes do acidente, local onde os fomos encontrar.

À beira da estrada estarão nesta altura uns 20 ou 30 ‘mouros’, todos de ‘djelabas’ iguais  rodeando um outro que se via logo ser de condição superior, que falava francês e que muito útil nos foi como interlocutor e testemunha. 

O ‘chefe’ tranquilamente acercou-se indagando das providências que já tinham sido tomadas e informando que o guia que nos acompanhava já tinha seguido para a Gendarmerie de  Zagora a pedir ajuda.  A Jurisdição era de Rissani e já tinha sido dado conhecimento às autoridades e pedida uma ambulância. Havia que aguardar… E os ‘mouros’ têm todo o tempo do mundo! Os dias são todos iguais do nascer ao pôr do sol… para além de umas preces a Allah nas horas certas, nada mais para os fazer mover.

E o tempo lá continua a passar, devagar, devagarinho, quase parado, mas as sombras do fim do dia já começam a estender-se. Vão chegando cada vez mais ‘mouros’, serão 50 ou 60. Assustadores, todos iguais, nas tais sombras do fim do dia e o ‘chefe’ no meio deles, tranquilo, dialogando. Consulta o tal de condição superior da possibilidade de mover os carros e pô-los em concordância com o acidente e de ir um deles embora para dar noticias nossas ao resto do grupo. 

O «savoir faire» do ‘chefe’ resulta. O Terrano é colocado antes do acidente para que todos compreendam que ninguém vai fugir. Os outros passam por fora da estrada e vão parar logo após o corpo. Com um suspiro  a ML vê o Niva partir para junto do grupo saindo da «cena de terror».



As sombras são mais longas, é sol-posto. Virada para Meca toda aquela multidão faz as sua orações. O que deveria parecer tranquilo e reconfortante é simplesmente tenebroso.

Pela mente do ‘chefe’ já tinha passado a interrogação – e se um destes gajos decide dar-me a primeira navalhada? Virá outro, outro, outro, são tantos e todos iguais… no fim, não terá sido ninguém! Como irá ser? Vou cair às mãos deles? E a polícia não vem, e o guia terá feito alguma coisa.

O pouco trânsito faz-se por fora da estrada; agora é um camião que se desvia, ao passar junto ao pessoal dos jipes estacionados faz com a mão um significativo gesto de fugir seguido de outro de cortar a cabeça. Agora já ninguém ri! O resto «daquilo que faz rir» ficou debaixo de uma pedra na berma da fatídica estrada.

Umas luzes vindas de Rissani – é finalmente a polícia. O ‘chefe’ respira, lá se safou da prevista navalhada. É o graduado com quem esteve conversando na povoação quando foi feito o abastecimento dos gasolinas. Simpático, profissional e cooperante. Foi uma das nossas objectivas que fotografou o corpo e foi suficiente a palavra do ‘chefe’ de que, na manhã seguinte, faria entrega das revelações na Gendarmerie de Zagora.

Mas o pesadelo ainda não terminou, chegou a ambulância vinda de Zagora, (uma Renault 4L) levantou o corpo e fez uma pira fúnebre no local de onde o retirou. Na berma da estrada outra fogueira (de quê nunca conseguiremos saber) A multidão agora menos silenciosa, as fogueiras ardendo na noite de breu, um arrepio, não só do frio da noite como do adejar da morte que nos tinha roçado.

E a lição… Um jovem, quase um garoto, aproxima-se do Terrano com ar grave. Com espanto a ML escuta o que ele lhe diz em francês «senhora, não esteja triste, vocês não tiveram culpa, ELA foi chamada, tinha que ir, ela está com Allah».

Finalmente estamos de novo na estrada e vamos reunir-nos aos nossos companheiros. Espanto!! Ainda estão no sítio onde deixáramos o primeiro, o Samurao das Amélias; encolhidos uns contra os outros como passarinhos enjeitados. O guia Larby que, confessou, num primeiro momento decidira fugir e deixar-nos à nossa sorte, tomara consciência e lá tinha regressado até junto de grupo depois de uma passagem pela Gendarmerie de Zagora.

Em todas as situações dramáticas parece haver sempre uma pausa para ajudar a suportar a tensão. A pausa deu-se. O Larby ao acercar-se do grupo foi logo interrogado sobre o ponto de situação. Não podendo dar informações concretas porque não tinha estado no local do acidente, mostra-se contudo muito satisfeito exibindo uma carta do ‘seu primo’ Chefe da Policia de Zagora, dirigida ao homólogo de Rissani, em árabe, pedindo a sua colaboração na resolução do assunto.

A fleuma não britânica mas portuense do nosso companheiro Roças deu para comentar «que sim, que estava muito bem escrita… não tinha erros», motivo de risos (bem amarelos) de todos os presentes.

 Vá cambada, vamos seguir para o oásis de Zagora no Vale do Draa e, como estamos todos juntos, já não é preciso parque de campismo --- vamos desfrutar de um belo hotel destes ‘mouros’ que até já sabem o que é civismo.

Houve quem desfrutasse menos. Para quebrar o stress as garrafas que estavam guardadas no cofre do UMM foram descobertas pelo PP e …consumidas…Ao chegar ao Hotel, alguns sem saberem como. Houve quem ficasse a dormir no Patrol, quem fosse para o quarto e quem fosse para a tenda berbere onde a chuva torrencial dessa noite entrou a rodos «mas não perturbou» quem a recebeu em cheio. Tal era!!

A NOSSA MEMÓRIA É ASSIM – O TEMPO DEIXA NARRAR A PERDA DE UMA VIDA JÁ SEM EMOÇÃO.
MAS A LIÇÃO FICOU PARA TODO O SEMPRE



UMA história   sobre Timor-Leste


A Ilha do Crocodilo





Hipocrisia! 





Lorosae - o País do Sol Nascente


Uma narrativa que nunca deveria ser escrita se toda a humanidade tivesse compaixão e sentisse na sua própria carne a dor de ver perder o brilho do sorriso de uns inocentes olhinhos negros
 
Em todos os cenários
ELES ACOLHEM-SE
TÍMIDOS E SOFRIDOS
AO PEITO DOS VOLUNTÁRIOS
QUE
COM O CORAÇÂO CHEIO DE AMOR
POUCO TEM PARA DAR

AS VEZES NEM SEQUER O PODER DE
SALVAR UMA VIDA MAL COMEÇADA A DESPONTAR

MAS ESTÃO LÁ
ONDE HÁ GUERRA E SOFRIMENTO
SEM MEDOS
NUMA ENTREGA TOTAL DA PRÓPRIA EXISTÊNCIA 





Um local perdido no mundo, um qualquer local onde há guerra, mesmo no pais do Sol Nascente.

Voluntários, cada qual com sua historia pessoal mais ou menos dolorosa mas todos com um fim comum - encontrar a paz de espírito - se preciso - sacrificando o corpo.

A recompensa de ser útil, de estar lá e de mostrar que o mundo se interessa. De poder transferir para quem sofre um pouco da sua paz interior, segurar uma mão e aperta-la tanto que se consiga transmitir a segurança de não deixar ir embora

Triste ilusão nem todo o amor do mundo, toda a força desse agarrar à vida chega para evitar ver partir mais um ser humano, que não entende o que se passa, que não pediu para nascer mas também não pediu para morrer.

Depois do deslumbramento de reter na memória a alegria de um sorriso de uns olhitos negros, a impotência, a frustração, a revolta e o trauma eterno de não ter conseguido evitar que se extinguisse, não só o sorriso, mas o próprio brilho desses olhinhos.

Não venham os moralistas, os religiosos, seja quem for tentar citar o destino normal de todos os mortais. Tretas! Uma criança não nasceu para de seguida ser esfacelada, mutilada e morta pela ambição de poder de homens fanáticos e prepotentes que mais merecem o apodo de animais.

Condenem-se as guerras entre os homens mas especialmente condenem-se as guerras fratricidas. Se os homens querem disputar entre si a posição de macho dominante, de senhor todo poderoso, façam-no como os grupos de animais, lutando machos com machos não aniquilando seres indefesos e que ainda nem sequer despontaram na vida para entenderem essa luta.

Usando chavões como liberdade, independência, direitos humanos, afinal encontramos sede de poder, de rapina, de vingança de usurpação.

Dêem-se prémios Nobel da paz a fomentadores de lutas fratricidas, continue-se a dar honras de chefes de estado a bandoleiros, arrivistas e chefes de guerrilha e o exemplo proliferara e tempos virão tão conturbados que a continuação da humanidade correrá perigo de autodestruição.


Ponderar as circunstancias, tentar perceber os acontecimentos, reviver cada vez mais à distancia o que foram os horrores então vistos, ajuda a poder fazer uma narrativa clara e desapaixonada daquele dia.

Os acontecimentos que se seguem datam de final de 1999.

Uma força de Paz, um destacamento de voluntários reunindo três nacionalidades a juntar-se às forças internacionais (UNAMET) Essas forças foram colocadas no território pela ONU com o fim de manter a ordem no recenseamento populacional com vista a consulta popular para a autonomia/independência .

A  situação de guerrilha arrastava-se há muitos meses, diz-se que desde o inicio do ano de 1999. Havia grupos armados que obviamente não defendiam as populações mas sim procediam à sua intimidação para que não fosse decidida a autodeterminação do território.·
Dessas acções a comunicação internacional deu especial relevo as atrocidades exercidas pelas milícias recrutadas fora do território e que levaram a sua crueldade ao ponto de massacrarem meia centena de pessoas no interior de uma igreja.

Em meados do mesmo ano voltam as milícias a exercer toda a sua violência atacando um comboio de viveres destinados a uma ONG com cerca de 40.000 refugiados dependentes dessa ajuda humanitária.

A reacção internacional a estes acontecimentos fizeram regredir por algum tempo a ferocidade e violência dos ataques da milícia.

O processo de autodeterminação seguia o seu curso sob a vigilância apertada das forças da UNAMET. Veio a culminar com uma ofensiva da guerrilha em todo o território, planeada e coordenada por JACARTA (Indonésia) que desde 1975 planeava a anexação do território.

A partir desta situação começa a haver conhecimento de perseguições a todos os elementos da ONU, das ONG, jornalistas estrangeiros e simples simpatizantes do movimento independentista.

Vários pontos do pais estão completamente debaixo de fogo inclusivamente a capital Dili e respectivo aeroporto.

É tempo de ser decidida a retirada imediata de todas as forças de paz instaladas no país por não haver o mínimo de garantia de segurança.

Esta descrição da situação politica  tem como objectivo, dado o tempo decorrido, relembrar os acontecimentos para facilitar a compreensão desta

HISTORIA ESCRITA COM SANGUE 


Desde Abril (1999) que a situação no pais era caótica. 

Após o massacre de santa cruz - DILI 1991 - para além de esporádicos episódios de confrontos entre as milícias e as tropas governamentais a situação parecia minimamente estável mesmo depois de em Janeiro (1999) ter sido anunciado o projecto de independência.

Não se entendia bem quais eram as facções armadas e assistia-se esporadicamente a tiroteios dispersos atribuídos a guerrilheiros fortuitos.

O dia 4 de Setembro amanhece debaixo de um tiroteio cerrado, com morteirada a cair por todos os lados, não se percebendo quem eram os atiradores.

Mas que estavam lá, estavam... e em força.

O calor húmido abafadiço era irrespirável. Misturava-se o pó com o cheiro intenso da pólvora, do que parecia metal derretido, carne queimada, não tem descrição que traduza.

O pequeno grupo : uma voluntária anónima, o Enf. Coimbra; a Enf. Adelaide; o Dr. Carlos e os espanhóis Jualsalben e Eulogio, refugiados atrás da parede de uma casa meio destruída em ERMERA aguardava uma pausa no tiroteio para atingir a viatura da UNAMET estacionada duas ruas a frente.

Não era fácil. O fogo das armas parecia partir de um ângulo de 150 graus, varrendo todo o espaço à nossa frente.

Era evidente o nervosismo dos nossos camaradas espanhóis - pressionavam para que estivéssemos atentos ao mais leve recrudescer do fogo para partirmos. estava um avião no AEROPORTO DE BAUCAU a espera para sermos evacuados mas partia a meio da tarde e tínhamos não sabíamos bem quantos quilómetros (400?) até ao aeroporto sem sabermos em que condições. Foi amargo reconhecer que eram muito piores do que esperado... lama, grandes declives e estrada não a encontrámos.

Não é fácil entrar na narrativa final.... ainda dói e doera para sempre...

No meio de toda a confusão, homens, mulheres e crianças fugindo para junto da nossa parede, murmurando em tétum não se sabe bem o que, talvez Rai-lacan (terra em chama) chorando, gemendo, alguns cheios de sangue, tornaram a situação ainda mais desesperante, caótica.

Narração na primeira pessoa
O CHEIRO A SANGUE EXISTE E INSUPORTAVEL JUNTO COM TODOS OS OUTROS CHEIROS JA DESCRITOS. MAIS RAPIDO QUE SE CONSEGUE CONTAR MAIS AFLITIVO QUE SENTIR UMA BOMBA PARA EXPLODIR JUNTO A NOS MAIS PARALIZANTE QUE UM GAS ALGUEM... NAO SEI...
MAS ALGUEM FALANDO TETUM EM TOM SUPLICANTE E CHOROSO PASSA-ME PARA OS BRACOS UM PEQUENO EMBRULHO
QUENTE HUMIDO MOLE ... ESTUPIDAMENTE AGARRO, SEGURO, PERTO CONTRA O MEU PEITO ESTARRECIDA, ESQUEÇO O TIROTEIO, ESQUEÇO O BENDITO ESPANHOL A GRITAR PARA CORRERMOS PORQUE DC 10 NAO ESPERA PARA ALÉM DO PREVISTO. ---- E OLHO O PEQUENO EMBRULHO
NÃO QUERO... NÃO POSSO... NÃO AGUENTO RELEMBRAR O QUE VI... ERA UM PEQUENO SER, UMA CRIANÇA PEQUENINA - 1 ANO,TALVEZ 2.
UNS OLHINHOS NEGROS MEIO MORTIÇOS, SUPLICANTES, OLHANDO-ME ESPANTADOS, MAS SERENOS, SEM MEDO, TALVEZ SÓ COM UMA PERGUNTA PORQUÊ??

Afastei o pano que o envolvia aconcheguei aquela pasta de sangue a mim, toquei a carinha com a minha face, a mãozinha pequenina e escura agarrou uma madeixa do meu cabelo no pescoço. Apertei bem a mim. Queria dar o meu calor, o meu sangue, não deixar fugir aquela vida Gritei... gritei... gritei com o frio e impessoal espanhol para que me levasse ao hospital de campanha. Estava obcecado pelo avião e gritava também para mim «deja-lo, deja-lo--- a una mujer... »
A mãozinha descaiu do meu caracol de cabelo, o sangue estava pastoso mas não escorria e aqueles olhinhos negros, parecendo molhados de lágrimas, tinham perdido para sempre a luz da existência. 
Estão gravados em mim para sempre, pela sua paz, pelo perdão que pareciam transmitir e pelo amor que parecia querer ainda dar-me juntamente com uma mensagem JA NAO VALE A PENA Adeus para sempre pequeno ser--- nem tenho a consolação de pensar na vida para além da morte para ter a expectativa de te voltar a ter nos meus braços. Então, sim, inteiro, feliz como tinhas o direito de ser; com o meu cabelo na tua mãozinha escura . Descobrir-te e saber se eras um menino ou uma menina. De ti só me ficou o teu olhar sereno. 
O bendito DC 10 lá estava ainda a nossa espera depois de uma viagem por estradas e picadas impossíveis,

 barricadas, postos de controle e ultrapassados todos os desafios. Uma viagem de regresso de quatro dias para esquecer, escalas técnicas, olhares curiosos e incómodos e finalmente o chegar a casa com a decepção da

MISSAO NÃO CUMPRIDA 

A TI PEQUENINO SER PROMETO QUE TAMBÉM POR TI IREI SEM RESERVAS A QUALQUER LUGAR NO MUNDO ONDE POSSA ALIVIAR O MEU ESPIRITO DO DESGOSTO DE TE TER DEIXADO PARTIR.

NÃO VALE A PENA!!!

UMA LENDA SAHARAUI




ALLAHU AKBAR ( Deus é grande. Louvado seja)

Deserto, as grandes dunas…
<< De um fôlego subo a grande duna 
respiro o ar cálido do imenso deserto 
ouço o silêncio das areias 
vejo morrer o sol no horizonte 

espírito da grande duna/ 
Sempre me mandas embora! 
Fica comigo na eternidade 
deixa-me formar uma nova duna 
ser parte do deserto que eu adoro 

eu quero, mas quero com muita força 
evolar na atmosfera 
aquela--- 
cálida e doce 
do deserto do meu pó » 



Aconteceu e isto foi há muitos anos, que duas poderosas famílias, os Zayed e os Atman, se odiavam de tal modo e o sangue de uns e de outros havia corrido tantas vezes que as suas roupas e mesmo o seu gado poderia ter-se tingido de vermelho para toda a vida. E sucedeu que tendo sido um jovem Atman o último a cair, estavam os Atman ansiosos por vingança.

Acontecia igualmente que entre as dunas, não longe do túmulo do santo Omar Ibraim, estava uma khaima dos Zayed, mas na qual já todos os homens tinham morrido e só era habitada por uma mãe e seu filho, que viviam tranquilos, já que até para aquelas famílias que tanto se odiavam, atacar uma mulher continuava a ser um acto indigno.

Mas uma noite apareceram os seus inimigos e depois de manietar a pobre mãe que gemia e chorava, levaram o menino com o propósito de enterra-lo vivo numa das dunas.

Eram fortes as ligaduras, mas sabido é que nada é mais forte que o amor de mãe, e a mulher conseguiu rasga-las, mas quando saiu para o exterior já todos se tinham ido e não viu mais de que um infinito número de altas dunas, pelo que se lançou de uma a outra esgravatando aqui e ali, gemendo e chamando, sabendo que o seu filho estava quase a morrer asfixiado e ela era a única que o poderia salvar.

E assim a surpreendeu a alva.

E assim continuou um dia e outro, e outro porque a misericórdia de Allah lhe havia concedido o bem da loucura para que deste modo sofresse menos o não compreender quanta maldade existe nos homens.

E nunca mais se soube daquela infeliz mulher, e conta-se que de noite o seu espírito vagueia pelas dunas não longe da tumba do santo Omar Ibrahim, e ainda continua com a sua busca e os seus lamentos.

e certo deve isso ser, porque eu própria já me encontrei com ela

ou, mais propriamente,

senti a sua presença numa noite em que já muito alta devia ir a lua, se não quisesse Allah que aquela fosse uma noite sem lua – quando me despertou um grito tão inumano que me deixou sem forças e encolhida tomada de pânico.

E em pânico estava quando de novo ouvi tão espantoso alarido e a este seguiram-se queixas e lamentações em tal número que julguei tratar-se de uma alma do inferno atravessando a terra com os seus uivos.

Nisto senti que esgravatavam na areia e pouco depois aquele ruído cessou para se ouvir mais além e desta forma o notei sucessivamente em cinco ou seis lugares diversos, ao mesmo tempo que os lamentos dilacerantes continuavam e o medo me mantinha encolhida e trémula.

Acabam aqui as minhas tribulações porque nesse momento ouvi uma respiração ofegante, atiravam-me punhados de areia à cara e que os meus antepassados me perdoem, mas confesso que senti um medo tão atroz que dei um salto




Acordei … estava na khaima 





onde, cedendo ao cansaço e ao calor me tinha proposto fazer uma tranquila sesta.

(adaptação de uma lenda Saharaui narrada por Alberto Vasquez-Figueiroa)






UMA reflexão



RENASCER




CA ESTOU...Regressei das areias do deserto e do deserto do meu descontentamento, pronta para viver a vida em pleno, porque, SO SE VIVE UMA VEZ e como se diz; arrepender-me do que faço nunca, só me arrependerei do que poderia ter feito e não fiz

A melhor coisa do mundo e um corrector - a gente escreve um livro mas em qualquer altura se pode corrigir e voltar a escrever por cima outra historia.
É obrigatório florescer para a vida, para o mundo, para nós próprios

Ilusões, sonhos inconsequentes mais ou menos envolventes mas mais ou menos irrealizáveis não vão ver cobertos a corrector mas simplesmente deixados numa gavetinha de boas recordações para, outro dia, lembrar com um sorriso de ternura e, talvez, também de nostalgia e esquecer o do passado por ter dado oportunidade ao presente.


... NADA NA VIDA E DEFINITIVO , POR ISSO, TALVEZ SEJA AI QUE RESIDE A BELEZA DE VIVER O RECOMEÇAR

Afinal e tão simples O RECOMEÇAR - infiltra-se devagarinho, sorrateiramente mas vaie-se instalando no nosso ser no nosso estar e sabe bem. É aceite, não como um turbilhão quase demolidor mas sim como uma brisa suave e morna que acalenta, acaricia e sabe bem.

O mundo, o nosso mundo, altera-se, o que foi lindo e se ensombrou volta a resplandecer de beleza de sedução e de encantamento. E um novo ciclo de vida e um novo desafio bom e apetece voltar a escrever por cima outra historia... que também comece por ERA UMA VEZ OUTRA E OUTRA PARTIDA PARA O DESCONHECIDO.

As páginas da vida são cheias de surpresas. Há capítulos de alegria, mas também de tristeza, há mistérios e fantasias, sofrimento e decepções. Por isso nunca rasgar paginas ou saltar capítulos, não ter pressa em descobrir os mistérios, ou perder as esperanças, pois, muitos são os finais felizes. E nunca esquecer: do livro da nossa vida, o autor somos nós próprios. Haverá sempre um tempo para AMAR e um tempo para LUTAR.
para podermos sair VENCEDORES 

Definitivamente no lema de que PARA SEMPRE não existe porque tudo tem um tempo, uma verdade muito real fica: .renascer ... como uma  frágil erva do deserto,



tão forte que  a grande tempestade não arrancou ...

e com o tempo, talvez se transforme numa grande duna

A beleza acontece... o encantamento envolve ... ao olhar o infinito descobre-se um tesouro... envolto em mistério … O DESERTO 



Como o esvair do mar
no desfazer de uma vaga em espuma

Como
o ocaso
num dia inesquecível

Como o desfolhar
da mais linda rosa

Como o último suspiro
de um moribundo

O amor desliza de mansinho,
apanhado numa ligeira brisa e
como  num bater de asas
provoca um turbilhão avassalador

Vira paixão
depois loucura
ansiedade
desespero
e como borboleta tonta
parte

Ira recomeçar o ciclo
- amor – paixão - loucura - desespero

Porquê?  Porque lá longe, sem saberem,







há seres que precisam de NÓS






UMA ajuda ao acaso





Souk de Ouarzazate





APONTAMENTO DE VIAGEM 

ACONTECEU EM OUARZAZATE


Um grupo de voluntários cumpre mais uma missão humanitária nas areias cálidas do Sahara marroquino.

Um desafio não acessível a todos e cumprido sempre com esforço, muita alegria e todo o amor do mundo.  Tem contrariedades, às vezes frustrações mas atingido o objectivo nada há de mais compensador e gratificante.

Só por si, a viagem de milhares de quilómetros em viaturas 4x4, no asfalto, na água, em pistas de calhau ou de areia, já é uma grande aventura cheia de acontecimentos e pontos altos de grande adrenalina. Mas há também as surpresas, os imprevistos e a necessidade de ir sempre mais além do que inicialmente se previu realizar.

Assim acontece em todas as missões; o olhar atento dos voluntários capta facilmente todos os sinais de anomalias, necessidades imediatas de alguém numa condição especial de sofrimento --- e esse olhar é suficiente para que, de imediato, fiquem esquecidos compromissos, horários, comodidades.

Um pequeno grupo progride no território marroquino com destino ao grande Sahara. Foram estabelecidas etapas de forma a conciliar «umas férias diferentes ajudando quem mais precisa».

Atinge-se as portas do deserto: a cidade de OUARZAZATE, confluência das antigas rotas comerciais, amalgama de culturas e credos e, talvez o maior centro de «trocas comerciais» da Africa do norte. Há que ter sempre tempo para confraternizar com estas gentes hospitaleiras, trocar bens para eles de primeira necessidade, por mais um cadeau, uma recordação… aquele punhal berbere para um amigo querido, a lâmpada de Aladino que nos vai fazer sonhar com génios e tesouros…

Todo o grupo se dirige para o grande «souk» absorvendo odores e cores, excitado com o misticismo do local e a alegre recepção dos vendilhões. Uma primeira aventura: atravessar a larga avenida fervilhante de viaturas de todos os tipos a uma velocidade inacreditável.

Mas

Está a passar-se qualquer coisa de anormal; há mais buzinas que as muitas já habituais, um desacelerar do trânsito e uma confusão quase ordeira diferente da também habitual.

No meio do pavimento das duas faixas descendentes algo se passa



Uma voluntária do grupo, alheada de toda a confusão, presta assistência a uma jovem nativa deitada no asfalto.  A sua presença cria como que uma muralha, deixam de se ouvir buzinas, o trânsito rola lentamente como que em respeito.
  

A voluntária continua ajoelhada no chão junto à jovem, com ela comunicando e, estranhamente, fazendo-se entender. Consegue fazê-la soerguer-se, oferece-lhe um rebuçado, afaga-lhe o rosto inexpressivo. Aos poucos a jovem vai saindo da apatia, sorri para a voluntária.

De mãos agarradas as duas levantam-se do chão --- o trânsito, agora parado, deixa-as atingir em segurança os degraus da berma.  E aí se sentam as duas, tranquilas, sorridentes, comunicando sem falarem uma mesma linguagem mas, de olhos nos olhos, como irmãs estreitamente unidas por um sentimento de partilha e de amor.

Largos minutos passaram, aproxima-se uma familiar da jovem --- da jovem deficiente --- que tem ataques --- que por vezes não sabe quem é --- que por vezes não sabe o que faz --------- como usa dizer-se nestas paragens --- .

--- a nossa voluntária estava no local certo na hora exacta para, antes de todos nós, ouvir aquele grito silencioso de socorro e a ele responder, sem medo, sem limitações, com todo o amor que os voluntários têm para dar.




MAIS UMA VIAGEM, MAIS UMA MISSÃO




Finalmente quando chegou a hora de partir acabou o stress da espera – começou a expectativa dos dias que se seguem e da concretização dos objectivos .




Ansiedade? Muita; mas racionalmente tranquilizada pela experiência adquirida. Há sempre o receio dos imponderáveis, da resistência física e da resistência das nossas máquinas indispensáveis para a ida mas também para o regresso.

Depois dos motores começarem a roncar todos os receios se esquecem e só há uma vontade --- atingir os objectivos.

Depois

A grande recompensa – o dever cumprido – o sorriso daqueles olhinhos negros felizes 




com os bombons que lhes levamos – a satisfação de lhes termos mostrado que a sua existência é importante e que nos preocupamos em ligá-los ao mundo exterior pelas novas tecnologias de comunicação.   E

O imenso Sahara, a paixão do deserto, rolar nas dunas, os seus perfumes e mistérios. O horizonte infinito com as suas miragens e sortilégios mas também o castigo para quem se atreve a profanar as suas entranhas.

Para além das pistas há o «buraco negro»; o caminho sem regresso, a atracção do desconhecido que, como um íman, atrai irresistivelmente mesmo sabendo-se que é o fim inevitável. Um fim inebriante que se aproxima devagar sem dor, quase anestesiante mas irreversível.

Depois? Será que há «depois»? quero  acreditar que sim! Um depois que não é mais que a cobertura de uns simples despojos com o nascer de uma nova duna. Que significado poderão ter esses insignificantes despojos perante a imensidão do Sahara?!

Que maior aspiração pode haver que ter capacidade para formar uma duna? Seria justificar ser chamada de <furacão> e fechar o círculo de uma vida de aventura e desafios.

Eu quero ser uma duna --- e se <os deuses>  forem meus amigos, os viajantes do deserto na brisa matinal vão sentir, mais que ouvir, um sussurro ninôninôninôninô…

Acabou… ainda não chegou a data certa - adeus areias e povo saharaui – mas será que iremos voltar, mais uma e outra vez? … até que o sonho se torne realidade

FIM DA COLECTÂNEA mas não da vida



LIMA

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